domingo, 6 de abril de 2014

sonho para refletir

imagem: www.samauma.biz
Há dias um sonho aparentemente simples revolve meus pensamentos.

Parecia uma festa para meu pai, na praia. Eu cumprimentava muita gente passando por mesas e por pessoas. Estava feliz e tranquila. Indo ao encontro de meu pai um homem de uns cinquenta ou sessenta anos me aborda. Bêbado, maltrapilho e cheirando mal. Segura meu braço e diz que me ama. Pude sentir que ele não falava de amor de casal, mas lembrava de algum afeto passado, mas esquecido. Mesmo assim eu tentava me desvencilhar desse homem desagradável. Afinal, estava bêbado, cheirava mal. Num giro de corpo, tentando sair dele com um sorriso amarelo, encontro meu pai que diz algo como: “minha filha, é nosso amigo... ele disse que te ama, diga a ele também...”. Minha lembrança naquele instante é de continuar desconfortável, mesmo com a presença de meu pai, e de não querer retribuir àquela demonstração de amor.

Este foi apenas um trecho do sonho. Acordei lembrando muito mais da Tia Rosário que também estava lá e não dei importância ao que acabo de relatar. Acontece que foi voltando à minha memória a imagem muito viva daquele homem. Acabei entendendo então, que ali havia alguma mensagem pra mim e me pus a pensar.

Alguém bêbado e maltrapilho tão diferente daquelas pessoas que eu cumprimentava na festa falava de um amor por mim, e eu não estava disposta a escutá-lo. Afinal, a única coisa que eu vi eram os andrajos. A única coisa que eu sentia, era o hálito incômodo de álcool e o mau cheiro do corpo. Essas impressões primeiras eram muito maiores do que o amor de que ele falava.

Já é possível, meus amigos, chegar a alguma conclusão?

Quantas e quantas vezes deixamos que isso aconteça em nossas vidas? Que a aparência nos impeça de ver o outro? Que a condição momentânea daquele que se nos apresenta leva à condenação sumária de quem ele é? Do que “achamos”, do alto da nossa arrogância que é nosso semelhante?

Pude perceber ali o quanto é fácil amar os cheirosos, os que nos riem seu polimento social, os que fazem o que esperamos que façam, os que nos agradam ou bajulam. Mas é disso que o amor é feito?

Meu convite hoje é que pensemos em quantas pessoas temos afastado do nosso convívio por qualquer dessas “inconveniências”. Poderia enumerar aqui um série delas, das que identifiquei em mim e nos meus, mas prefiro deixar aberta a reflexão. Não é fácil [e quem disse que seria?], mas tentemos ver mais, e ver além. Que consigamos retirar as cascas e fruir o amor.


Paz e bem!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013


Fia, lembrei desse texto que escrevi em maio de 2009, e resolvi trazer pra cá para dizer que meus desejos são desde sempre de amor e alegria. 

Que o Sorriso seja constante e se multiplique, com paz e saúde pra você e para os seus.

Parabéns!

beijão.

O casamento do Sorriso


Sorriso disse “vou casar”, assim que me viu. Ri com Sorriso, certa de que era a brincadeira do dia.

– Vou casar! Repetiu o Sorriso, com olhos de quem diz a mais pura verdade.

Agarrei Sorriso de solavanco e dei abraço apertado, daqueles em que a gente diz que ama, e entre trigo, ovos, bifes e farinha de rosca, conversamos.

Percebi, então, algo bem diferente naquele Sorriso que já conheço tão bem: estava certo, sereno, confiante, calmo. Não havia dúvida. Não havia hesitação. “Meu Sorriso cresceu”, eu pensava. Cresceu, e toma pelos braços pra caminhar ao seu lado alguém que cresce também. Sorriso toma nas mãos o destino tendo avaliado os riscos, como de costume; planejando os passos, como de costume; mas certo de que está preparado para o incerto que por ventura venha, pois sabe que vale a pena. Sorriso já sabe que o amor não é uma equação com resultado exato, e portanto, o casamento não será.

Cresceu, meu Sorriso, e por isso as lagrimas que até agora me correm. Lágrimas de alegria, por saber do tanto de amor que há, dele pra ela; dela pra ele.

Vivenciamos uma alegria diferente, ontem. Havia uma energia nova no ar. Era cheiro feliz de camarão ensopado da vovó Saló. Eram os olhos brilhantemente encabulados do Alexandre, sorrindo uma alegria intima de quem volta à paz. Era o ir e vir da Dona Fátima com o coração sossegado de feliz avó, por ver felizes os seus.


O tradicional almoço de sábado da Vovó Saló teve gosto de quádrupla comemoração. E é prenúncio de que ainda haverá muito mais pra se comemorar, e agradecer. Afinal, Sorriso, de agora em diante, mais do que sempre, estará conosco.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Coleção de delicadezas



Descobri: sou colecionadora de delicadezas. E quanto mais dessas joias vivo, vejo, e guardo, mais rica fico. A que ganhei essa semana começou como agradecimento à Dona Saló no mural de Fátima Rabêlo, e me chegou em abraço apertado e emocionado horas depois. Pouco importou se não conhecia Gilka: um amor aos meus é como meu velho conhecido. E eu, naquele abraço, senti como que parte da história daquela amizade longeva. 

Gilka, que eu conhecia apenas pelas palavras de carinhos das minhas sogras, um dia antes da partida da nossa querida, publicou fotos do “balanço”, presente da Dona Saló para seus filhos. Quando soube da triste notícia, contou emocionada sua chegada em casa com a filha nos braços, sendo por ela recebida, e ouvindo “seja bem-vinda, Lucianinha, essa é a Vovó Saló”. E ela foi para aquela jovem vizinha, por alguns anos, o que soube ser de melhor: mãe!

Como mãe foi de grande parte dos empregados, ajudando em sua formação, estimulando-lhes o crescimento, como bem lembrou Sebastião - ex-funcionário e hoje Advogado -, também um filho seu, como fez questão de dizer no sepultamento quando rendeu homenagens a ela.

Mãe do morador de rua, que mesmo com muita dificuldade de locomoção subiu dois lances de escada apenas para se despedir, como disse, daquela que “muitas vezes matou minha fome”.

Era como mãe que acolhia. Que alimentava quem tinha fome. Que acalentava quem tinha medo. Que abrigava quem precisa. Que aninhava suas joias preciosas, seus filhos, netos, bisnetos e tataraneta a quem amava. Que me transformou em filha. Que viveu, como poucos, a doação.

Das delicadezas que pude guardar desses dias, e que vai ficar em destaque no meu coração, uma ficou mais forte, talvez porque represente bem um sentimento que me é tão caro: as flores penduradas ao portão. Foi uma forma de retribuir e agradecer algum gesto de bondade dela. Representam gratidão, por certo.

Essas pequena demonstrações de carinho é que confortam o coração de quem ama e sentirá tantas saudades, bem como a certeza da missão de semeadura de amor e generosidade, cumprida. E nossa querida Saló cumpriu essa missão com louvor!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


Em nossa cultura a devoção a um Santo parece estar sempre muito ligada a pedidos de graças. Foi assim também que Santa Teresinha me chegou. Eu estava triste com tantas tentativas frustradas de realizar meu sonho de ser mãe, e de ver que cada vez mais as coisas se complicavam nesse sentido, e uma colega de trabalho [que hoje posso dizer, amiga], perguntou-me se eu tinha fé. Disse que sim, e ela me falou de Santa Teresinha, e de como nunca fora desamparada num pedido a ela, ainda que fosse dando a conformação e compreensão de que o que pedia não era o seu caminho.

De imediato pensei que não era justo eu me aproximar de uma santa só para pedir alguma coisa para ela.

Contudo, no dia seguinte, fui surpreendida por uma imagem da Santa no facebook. Achei curioso, mas ignorei. No segundo dia, uma outra amiga postou um texto agradecendo a Deus e à santa por um bem em sua vida. Aquilo começou a me chamar a atenção. E no terceiro dia isso aconteceu mais uma vez. Para essa terceira pessoa, a Ana Emília, que eu só conhecia pelo twitter e facebook, envie uma mensagem agradecendo, e contando que compreendi o chamado. Ana respondeu que no domingo seguinte deixaria em minha casa a Medalha Milagrosa de Santa Teresina que trouxera do Seu Santuário em Lisieux.

Uma onda enorme de amor e gratidão me tomou naquele momento. Imagine a alegria de ter para si a delicadeza de um presente como esse de alguém que conhece apenas pela internet?

Esperei ansiosa pelo domingo, e tive naquele abraço e naquele presente a confirmação de que minha vida mudaria a partir dali.

Assim é que daquele momento em diante, conhecendo a florzinha do Carmelo, eu que andava tão afastada de Deus senti-me completamente acolhida. Foi assim que daquele momento em diante, eu que tomava remédios para controlar a ansiedade, nunca mais senti aquela angústia horrorosa que sempre me acompanhou.

Quanto mais conheço e compreendo a doutrina de Santa Terezinha, mais paz sinto. Sua lição é de simplicidade, abandono, confiança e amor, e é dessa forma que pretendo pautar minha vida.

Curioso como tendo sido educada numa família católica, tendo estudado em colégio de padres, tendo sempre estado em meio às palavras de Deus só agora eu sinta que verdadeiramente o encontrei. Não aquele Deus que quer de mim o sacrifício, a submissão, mas aquele que espera de mim o amor, que quer de mim o exercício pelo do afeto.

Hoje se comemora o dia de Santa Terezinha, e rogo a ela que continue a derramar sobre nós sua chuva de rosas.

sábado, 7 de julho de 2012

Amizade


Olhando assim essas duas fotos juntas, tive a dimensão da grandiosidade do que significa ter amigos que te acompanham desde a infância.

Hoje tem a Tatiana morando no exterior, Janaína no sul do Brasil, e Valéria um pouco mais distantes, mas sabemos que quando nos encontrarmos de novo, como aconteceu em 2009 quando essa última foto foi feita, será como sempre foi, desde que corríamos as olimpíadas da Campos Sales, e nos reuníamos no clubinho cuja sede era minha casa.

Sabemos que vamos rir relembrando todas aquelas velhas histórias que ninguém se cansa de contar e de escutar. Que vamos perguntar um do outro, não pra saber se um tem mais ou menos ‘sucesso’ (sic), mas porque verdadeiramente torcemos por nossas felicidades.

Ainda somos aquelas mesmas crianças que brincavam, brigavam, e aprendiam uns com os outros. E somos amigos leais. E estaremos um dia com nossos filhos, torcendo pra que eles não aprontem metade do que aprontamos, mas pra que construam amizades como essas que se tem pra uma vida inteira.

Somos afortunados.

Essa foto deve ser de 1985 ou até 87. Esmaeci os outros da foto pra destacar quem continua nessa empreitada de amizade. Da esquerda pra direita, os mais altos: Valéria e Luizinha; Lívio Bruno (primo), Jordan (irmão), eu (A mudêla! Kkk) e Janaína; em baixo, Paulo Eduardo, Amanda (irmã) e Tatiana (de franja).

Foto feita em 2009. Jordan mostrando as mãos; da esquerda, Valéria, Janaína, Amanda e Cezário (que não estava na foto anterior, mas também é das anteras); Luizinha, Tatiana, Paulo Eduardo e eu lá em baixo sendo esmagada de tanta alegria.
 

Ô saudade, viu?


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da fraqueza a força



Ontem, enquanto pensava nas transformações que aconteceram em mim, em meu marido e nas nossas vidas, e agradecia a Deus por isso, lembrei de um dito popular que minha avó usa bastante: “é preciso fazer da fraqueza a força”.

Foi o que nós fizemos. Melhor, o que temos feito: transformar a fraqueza em força. A confortável cadeira do comodismo por anos foi nosso assento. Não éramos quem queríamos, não estávamos na situação em que sonhamos, mas, vítimas da vida, remoíamos as oportunidades perdidas, como quem está no fim do caminho.

Não saberia precisar em que momento o prego em que estávamos sentados doeu insuportavelmente ao ponto de nos fazer levantar, mas aconteceu. Não saberia enumerar quantos, nem quais fatores nos levaram a transformar a insatisfação em ação, mas transformamos. O fato é que passamos a nos entender como sujeitos ativos das decisões, dos rumos, dos caminhos a trilhar. 

Falo por nós dois porque fizemos isso juntos, de maneiras diferentes, e em tempos diferentes, respeitadas as nossas inúmeras diferenças, mas fizemos juntos. Quando um esmorecia, o outro incentivava. Quando um caía, o outro acudia. Quando um chorava, o outro consolava. Quando um conquistava, o outro aplaudia.

Sei que das muitas coisas que percebemos, uma foi a clara diferença entre as pessoas que fazem das dificuldades e do passado um confortável sofá, das que usam os problemas como tiro de largada. Apenas uma chega a algum lugar: quem parte, quem empreende a busca.

Saber disso não torna as coisas mais fáceis; pelo contrário. Transformar a fraqueza em força demanda mais do que vontade: demanda esforço. E o esforço precisa ser constante, consciente. E pra que ao final não reste apenas o cansaço é preciso ter propósitos claros, para que seja clara a certeza de ter alcançado o objetivo pretendido.

Agradeci ao Pai por todo o aprendizado. Por todas as metas alcançadas. Por todas as novas metas traçadas. Pela nossa união, pela nossa família, pelos nossos amigos, que são estímulo, apoio, alegria, exemplo. Agradeci a Deus a benção de ser eu, e de tê-lo como marido. Agradeço por estar de pé, atenta, alerta, lutando pelo meu bem e o bem dos meus, fazendo minha parte, arando meu campo mantendo a fé de que a chuva continuará a cair.


[texto escrito em 2008, que hoje, 24 de fevereiro de 2012, revivo, por ser nosso aniversário de casamento. Esta é uma das coisas de que mais me orgulho em nós: companheirismo.]

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mote: ação



Motivação. Encarei a palavra escrita em um pedaço de cartolina posto em minha frente. Arregalei os olhos enquanto erguia um pouco mais o tronco, com as pernas cruzadas. Tentava entender não o que ela queria me dizer, mas o que ela queria que eu dissesse. Então me dei conta de que não haveria onde marcar meu “xis”: a resposta era subjetiva demais. Começava a entender – acho – que eu estava sendo incitada a pensar sobre o assunto. Quais eram as razões de ser? Que papel tinha em minha vida? Quais as justificativas para determinadas atitudes?

Uma quantidade enorme de interrogações foi se formando em mim. Mas pouco a pouco fui percebendo que era sobre “ação” de que se falava; ou melhor, dos motivos que levam à ação: de que motivos me levam, ou me levarão a me manter em ação.

Muitas coisas têm mudado em minha vida, e saber agir, sair do plano das idéias e colocar os sonhos em prática é uma delas. Mas embora eu já tenha conseguido mover as engrenagens certas aqui dentro para determinadas atitudes, algumas permanecem enferrujadas. E o que vai me levar a encontrar o ponto certo? Onde está o fio solto, o parafuso frouxo ou o dente quebrado? E como manter meu motor lubrificado o suficiente para que ele continue em ação?

Se fosse simples como saber que há um óleo para freio, outro para motor... e que óleo Singer servisse pra gente tão bem como pra maçanetas... mas são tantas coisas burilando dentro da gente; são tão diferentes em tipos e intensidades; tão diversas em cada um de nós, que só é possível dizer que o que serve para mim não necessariamente vai servir para você.

Eis a chave: olhar para dentro, estar atento, manter-se desperto. Saber, mesmo que de uma forma geral, como funciona; e assim poder acionar os mecanismos certos. Não nos reduzo a uma máquina, apenas tento ilustrar como tenho me sentido: descobrindo meu manual de instruções.

O mote para a mudança, desde o começo, é a ação. A necessidade dela, a dinâmica dela. A razão de agir pode ser diversa em cada um, e pode ramificar de formas diferentes. Eu sei o que me move, e não descobri no Google, como descobri a autoria da frase que há tempos repito: “o amor me move: só por ele eu falo”, atribuída a Dante Alighieri ― descobri na eugenia, na herança que carrego no meu “número de série”. É de família; tanto herdado, quanto ensinado, e aprendido.                                    
                                
O texto é antigo, mas continua a me servir. E continuo a descobrir, com alegria, o meu Manual de Instruções.
                                                                                                                                            

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

das coisas que desgosto

Ando tomada de um cansaço que consome até as palavras. Cansaço de buscar aquelas que seriam capazes de traduzir a extenuação em que me encontro. É o dia que começa com dor de cabeça, se enche de felicidade e esperança e volta a padecer do cansaço dos dias iguais em suas idas e vindas. Tantos dias carecedores da constância que equilibra e conforta. Minuto feliz, com as possibilidades de vencer os obstáculos; momentos de profunda gratidão por tudo o que tenho e por tudo o que amo; horas cheias do atarefado ócio de quem tem sempre muito que fazer, e nada vê pronto.

Cansaço corrosivo por todos os dias precisar vencer a própria inércia e dar o primeiro passo, como se cada baforada de ar que colocasse para dentro fosse consciente e trabalhosa. Como se cada ínfimo pensamento fosse uma centelha, e que todos eles juntos fosse um caldeirão hermeticamente fechado e pronto para explodir. Cansada até mesmo de ver felicidade nisso tudo, e de rir dos meus problemas, tropeços, quedas, topadas e equívocos. Cansada de ver quem amo trilhar caminhos tão fáceis quanto perigosos, e cansada de me importar com isso.

Todo dia um leão. Melhor, uma leoa. Todos os dias luto comigo e não sei se venço ou perco. Apenas sei que sobrevivo, e sobreviver às vezes cansa.

Das coisas que desgosto, essa que agora exercito é das piores: a amargura. Quase sempre proíbo com vigor que ela se manifeste em mim, e enfio um pouco mais para dentro para ver se passa. E não passa. E o eu “Poliana” dos livros da adolescência me toma e me aquieta. Assim, digo todos os dias que há milhões com tantos e piores sofrimentos que eu, e tiro de mim o direito de lamentar, praguejar e maldizer. Dessa forma tiro de mim a oportunidade de exorcizar, de esvaziar meu peito dessa angústia infinita de viver me perdendo e me encontrando.

Lembrei das palavras do Quintana: “A nós bastem nossos próprios ais, Que a ninguém sua cruz é pequenina. Por pior que seja a situação da China, Os nossos calos doem muito mais...” e resolvi dedicar aos meus dolorosos calos essa lástima.

Resolvi hoje pensar em mim e doer minha dor. Resolvi me encher da humanidade e fragilidade dos que sucumbem a ela. Resolvi que é desumano eu tentar sempre ser positiva e operante, e que se não há esse ser vivente que enfrente tudo sem vacilar ou sofrer, não preciso pretender aparentar – embora essas palavras tenham me soado mal juntas – o contrário.

Sorrio, brinco, choro, sofro, empino o nariz, estufo o peito, gargalho, caio e tropeço. Assim, tudo junto. E, agora, acabo de descobrir, sou capaz – e bem capaz – de ser amarga e mesquinha. Melhor, sempre fui capaz de sê-lo. Melhor ainda: sempre fui, e agora sou só mais capaz de admitir. Meus calos doem mais que os seus porque doem em mim.

Sinto tudo ficando mais leve.

Sinto a menina saída do confessionário rezando suas três ave-marias e seu pai-nosso. Só não é em penitência; é em agradecimento pela folha em branco que me redime.



o texto não é novo, o sentimento também não é. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Caçador de si

Hoje é aniversário daquele que me apaixona e encanta, alegra e orgulha, assusta e admira. Vejo o mesmo homem de dez anos atrás e ele é tão perturbadoramente o mesmo, mas tão desafiadoramente diferente...

Continua a ter os olhos curiosos de criança - incapazes de esconder o que sentem. Mas também ganhou no brilho a serenidade de quem sabe o que quer, com a segurança de quem tem nas mãos uma bússola e no coração uma certeza.

Meu amor é samba de poesia tão simples quanto sábia do Cartola; feito da pureza das coisas brutas que prescindem do lapidar que falseia seu valor.

Posso vê-lo no Clube da Esquina, curvado sobre seu violão canhoto cantarolando “Se já nem sei o meu nome, se eu já não sei parar...”, agudo e arrastado na suave melodia de Manuel Audaz. Mas não carrega só a melancolia típica dos poetas, e a introspecção dos mineiros: tem a perseverança dos que quietos trabalham pelo porvir tendo no coração o moleque que vence a porteira, ou alcança a janela.

Ele é violão dedilhando Lô Borges. É o som negro de Cassiano, a versatilidade de Ed Motta, e a diversa musicalidade de Djavan. Ele é Gilberto Gil e sua impossibilidade de definição.

Alexandre, meu amor, é música.

É o pulsar da Timbalada, a bandeira e a mistura do Chico Sciece; É a quietude de Sá e Guarabira tanto quanto Beatles, Queen, Iron Maiden, Steve Wonder e Dave Matthews. Tem a inquietação do Ira, dos Paralamas, dos Titãs... É Caetano cantando “quero um baby seu”, Ivan Lins em “guarde nos olhos”, João Bosco e sua “memória da pele”. É “tonelada de desejo” do Bronw, a ladainha do “vestido de chita” de Daniela Mercury, e o “Assum preto” do Gonzagão.

Meu amor, Alexandre, é sobretudo, música. E uma é mais do que as outras: Caçador de mim.

Ali o vejo definido: doce ou atroz, manso ou feroz, entregue a paixões, movido por elas. Vejo nele a incessante busca por si mesmo cantada por Milton Nascimento. Ele repete que não há nada a temer senão o correr da luta; que não há nada a fazer senão esquecer o medo. E assim tem ido longe. Assim tem sonhando em ir além. Assim tem superado medos, incertezas, obstáculos. Assim tem se descoberto mais que caçador: vencedor. Não aquele que ergue o troféu, mas aquele que já venceu a si mesmo na luta pelos primeiros passos.
Meu amor é minha trilha sonora.

domingo, 8 de maio de 2011

Por ela, Luísa.


Há muito era anunciado que dali por diante, tudo seria por ela. Na barriga, ouvia o ninar da canção que inspirou seu nome: Luísa. Fora do ninho da mãe, aconchegada pela primeira vez no ninho do pai, ouvia a conhecida cantiga.

Mamãe da cama acompanhava o ir e vir do papai com a cria nos braços. Mãos grandes de delicadeza. Braços fortes de vencer a vida em nome dela. Já se sabia, mas naquele instante tudo se tornava mais claro e real.

Um rir de olhos, uma voz de veludo, e papai arrumava jeito de acomodar nos braços sua maior riqueza. E se ouvia o cantar doce de Chico... e se se pudesse apurar um tanto mais os ouvidos, ouvir-se-ia também o coração da mamãe em sossego, o coração do papai em compasso, e o coração da Luísa, em sua certeza-anjo de estar em bons braços.

Por ela. Por ela, e para ela. De sempre, e mais adiante, o amor se desdobrará em cuidados cotidianos, e em tudo o mais enquanto possa, para que ela durma e viva em paz.

Luísa é filha do meu enteado  Alexandre Júnior, e da minha amiga Ana Izabel. 
E é dando o "Primeiro Feliz Dia Das Mães" para essa mamãe, que homenageio todas as outras. 
Paz e Bem!
 
 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Amor de picadeiro



Amo-te tanto, amor, que por vezes em mim gira a alegria bailarina de piruetas. Amo-te tanto, que meu peito por horas se faz picadeiro tomado por palhaços, equilibristas e malabaristas. Amo-te tanto, amor, que por dias ouço o dobrado anunciar o perigo, e rio a ansiedade do ápice do espetáculo: ―Rufem todos os tambores, que meu amor me chega, e a cada segundo é como chegasse, e a cada segundo é como se de novo chegasse, e a cada segundo, espero que ele de novo chegue. E eis que surge, criança grande rindo lábios e olhos, prometendo-me felicidade de cócegas.

Amo-te assim ― tanto ―, amor, que me faço pequena expectadora arquibancada no espetáculo de te amar.

                                                                                  

quinta-feira, 10 de março de 2011

Descor




Sobra cinza no dia. Descorada alegria desbotou. Mais. Ainda mais. Cor de junção de chão. Quina de móvel há anos imóvel. Esquecido no lugar. Cinza sombra de tempo. Palavra rabiscada a grafite. Despelando do corpo das coisas ditas. Esmaecida. Desconjuntada. Isolada. Perdida do que foi. Poeira do que sobrou. Cinza poeira da brasa que ardeu. Um dia ardeu. Sopra. Sopra. Assopra. Nada. Dança cinza fecha a cortina. Nada. Nem pingo. Nem vermelho. Nem laranja. Nem amarelo. Nem esperança de cor no carvão. Melou. Olho cinzento d’água. Do que foi, do que poderia ser, do que teria sido se não fosse... se não fosse adeus.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SEGUNDA: FÁCIL – Jota Quest



Tudo é tão bom e azul
E calmo como sempre
Os olhos piscaram de repente
Um sonho
As coisas são assim
Quando se está amando
As bocas não se deixam
E o segundo não tem fim
Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto
Tudo se torna claro
Pateticamente pálido
O coração dispara
Se eu vejo o teu carro
A vida é tão simples
Mas dá medo de tocar
As mãos se procuram sós
Como a gente mesmo quis
Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto

Esta foi, na verdade, a primeira música que chamamos de “nossa”. Quando nos conhecemos, esta era a música mais tocada nas rádios e festas de Teresina. E virou nossa marca. E todas as vezes em que a gente se desentendia (e não eram poucas), ela tocava. A gente se olhava, sorria, e fazia as pazes. Era uma espécie de sinal. Coisa tola de gente apaixonada, claro, já que era natural que a música de maior sucesso no Brasil naquele ano, tocasse o tempo todo.

Parecia falar da gente. Nos sonhos, na urgência do amor que parecia não ter tempo de esperar. No coração em disparada em todos os encontros. E o nosso desejo de que tudo fosse “fácil, extremamente fácil”.  

Hoje, quando toca “fácil”, a gente ainda se olha com aquele mesmo olhar de cumplicidade, e ri, lembrando do tempo em que pensava que ela tocava só pra gente.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"razão pra poder seguir"





Semana que vem é nosso aniversário de casamento. Cinco anos. Em maio, dez anos juntos. Desde o dia em que nos conhecemos, lá se vão quase doze anos.

Como a música sempre foi um elo, e uma forma de comunicação pra nós, mesmo quando não estivemos juntos, vou comemorar nosso aniversário postando algumas músicas que foram marcantes, e porque não dizer decisivas, nas nossas vidas, na nossa história.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A menina que senta na frente


A menina que senta na frente prende parte dos cabelos no alto da cabeça e deixa pender os cachos por sobre o ombro. Recende deles um cheiro bom de manhã com café e leite. 

A menina, quando senta na frente, deixa as pernas balançarem sem que os pés toquem o chão, e me carrega por minutos cheios de muitos segundos no vai e vem das pernas dela, enquanto o professor fala de algum assunto alheio ao movimento cadenciado e leve da existência dela.

A menina, finda a aula, presa no meu olhar infinitamente atento, apóia o pé esquerdo no chão, gira o corpo, ergue o quadril, e arruma com as mãos a blusa que mantém sempre dentro da calça. Meu coração, inda quieto de contemplação, principia disparada.

A menina vem morena e graciosa com sorriso de inacessível ‘nota dez’ para o meu saber parco e interesse pouco das coisas que não são dela. Tem um sorriso gigante de uns dentes imperfeita e lindamente colocados. Uns olhos pretos emoldurados por longos cílios. Um rosto comprido e fino, incapaz de abandonar meus pensamentos por um segundo que seja.

Da menina tudo pertenço, e de tudo me apodero: o andar macio com os pés afastados como relógio que marcasse dez pras duas, da testa alta e inteligente, dos óculos sempre levemente borrados, do jeito de cingir as sobrancelhas quando duvida de algo, do cheiro de lavanda, das coisas que dia a dia descubro no meu acanhado e silencioso observar.

Vem a menina que senta na frente e passa pelo invisível. E mora no invisível. E ocupa todas as coisas possíveis do invisível ser que a adora.

imagem, fonte: http://kaliblog.blogspot.com/2004_08_01_kaliblog_archive.html

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

um jeito de ver o Carnaval de Teresina


O assunto da semana em todos os portais e jornal de Teresina foi a recomendação administrativa do Ministério Público, através da Promotora Leida Diniz, de que não houvesse repasse da ajuda de custo do município para as Escolas de Samba. O prefeito resolveu não brigar com o MP, e suspendeu o repasse que viabilizaria o desfile.

As razões da recomendação? Pelo que se pode ler e ver nos meios de comunicação: a promotora acha – e aqui, pra mim, esse “ACHA” grita! – que há coisas mais importantes com o que a prefeitura se preocupar. Nas matérias que li não há menção sobre malversação do dinheiro público por parte das GRES, nem da prefeitura. Em reunião com os representantes das escolas ela disse ter conhecimento de que no carnaval “não se distribui leite”, e sim bebidas alcoólicas, e compara o orçamento público com o doméstico e encerra a reunião dizendo “vocês como donos de casa, pais de família, se estivessem com o orçamento apertado fariam festa ou pintariam a casa?” (não estive lá, não ouvi esta mesma frase, mas do que ouvi do presidente do Sambão, corroborada pelas entrevistas dela que li, ainda que sejam outras as palavras, a ideia continua a mesma). Vi em sua fala desconhecimento, preconceito e parcialidade.

O que a senhora Leida ignora, e não está sozinha, infelizmente, é que uma escola de samba gera renda, direta e indiretamente, para inúmeros e variados profissionais. Para ilustrar: figurinistas, costureiras, sapateiros, ferreiro, carpinteiro, músicos, coreógrafos, dançarinos, etc. Faz circular dinheiro na compra de tecidos, madeira, ferro, adereços, tintas, e etc. Isso sem falar naqueles que no dia do desfile vendem bebidas, comidas, empurram os carros alegóricos e mais etc. e etc.

Muito do que digo agora já foi repetido e argumentado em anos anteriores. Mais do que defender o carnaval de escola de samba, gostaria de levantar alguns questionamentos com base no que li ao longo de toda a semana no twitter.

Carnaval é cultura? Em sendo, é cultura de menor valor? Se considera que não é cultura, por que em Recife e em outros estados ele é considerado Patrimônio Imaterial?

Ah, o carnaval de Pernambuco é lindo? É? E ele estreou no mundo sendo lindo?

Se o carnaval de Teresina não é lindo e lucrativo como em outras partes do Brasil é justo que se coloque a culpa única e exclusivamente nos diretores de escola de samba?

Houve descontinuidade do carnaval de GRES, o que gerou insegurança e descrédito. Todos os anos havia insegurança quanto a realização dos desfiles. Sendo assim, como é possível que a escola de samba se prepare, e siga sozinha, sem saber – e em todos os dez anos que acompanho nosso carnaval foi essa peleja – se haverá desfile ou não? Se o prefeito vai garantir a infra-estrutura e os repasses?   

Muitos são os especialistas, debochados, intelectuais, micareteiros, e “fiscais” de plantão, sendo levianos e desrespeitosos com quem faz com amor e garra o carnaval de Teresina. Mas todos esses, quando o carnaval chegar, vão para os seus sítios, para as praias vizinhas, para os festivais de música na serra...

E de quem então ficavam lotadas as arquibancadas? Que pessoas estavam nas alas organizadas e coreografadas? De onde saíram todos aqueles cadeirantes que emocionaram o público no desfile do Sambão? Que pessoas eram aquelas indo e vindo com suas famílias, lotando as barracas ao longo da Marechal?

São moradores da Matinha, da Vila Betinho, do Poti Velho, do Bumba Meu Boi. São feirantes do mercado. São pessoas simples, de vida simples. São assalariados que só podem ir à praia se pagarem parcelado, uma excursão  de 2 dias. Mas isso também é coisa de pobre, né?

Mas na televisão, em 2009, mostraram a arquibancada descoberta e ela estava vazia. A repórter falava com outro colega no interior do estado e mostrava os blocos de trios elétricos: um mar de gente. E voltava para a arquibancada vazia, ignorando o porquê de ela assim estar: Chuva!

[Qual? Aquela TV que há anos brigava por uma micareta. Que interesse teria, então? Pois é...]

Por fim, se há desconfiança na aplicação do dinheiro por parte das escolas, a promotora deve fazer mais do que recomendar que não seja feito o repasse: denunciar. Quem deve que pague. Afinal de contas, como disse Paulo Andrade em comentário na coluna de Sérgio Fontenelle: não parece inteligente matar o boi para acabar com os carrapatos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

para uma menina

Há pouco mais de dez anos atrás conheci uma rechonchuda menina de bochechas rosadas de vestido de bolinha. E a única coisa que desejei, foi que ela me aceitasse.

Essa menina rosada e sorridente era falante, conversante, matracante. Queria ser passista da Escola de Samba, queria o disco da Kelly Key, queria cantar “Juvenar” do Karnak, queria estar comigo e com o pai aonde quer que a gente fosse. E nessa época, enquanto ela fazia parte da minha vida com uma definitividade perturbadora, eu só quis que ela um dia me entendesse.

Mas o que mais fortemente queria essa menina, uns cinco anos atrás, era crescer. E nessa de muito cedo querer ser dona do próprio nariz, de experimentar a vida na urgência que só os adolescentes têm, foi colecionando atropelos tantos quanto as cores de cabelos e piercing e gostos musicais e amigos virtuais quanto pudesse. Apareceram, então, os primeiros conflitos. Eu queria proteger, educar, fazer da minha asa o lugar mais seguro do mundo. Ela queria enganar o tempo na ilusão de que crescimento é liberdade. E a coisa que mais desejei foi que ela me ouvisse.

Há exatos três anos a menina fez quinze anos com uma bonita festa. E incumbida de dizer algumas palavras, fiz um poema, “que é coisa mais afeita às tuas luas”. E dizia “o amor não é dizido: é demonstrado. E o tanto que te amo, deixo ao teu coração, que sei: é sábio”. E tudo o que quis, com toda a força do meu coração, foi que ela soubesse.

Meses depois puxei a menina pelo braço e tive com ela a conversa mais franca da minha vida. E esperei, com a tranquilidade de quem se desnuda, que ela acreditasse.

Experimentamos então, a menina e eu, nos últimos dois anos, uma época de estranheza. Eu queria ver, no fundo daquela confiança adolescente, o coração da menina de vestido azul. Queria ver na alegria virtual daquela menina, a verdadeira alegria, aquela que não vai boca a fora, mas salta dos olhos, e invade gente a dentro; e não via. Queria ver nela dedicação e empenho com os estudos; o futuro. Queria que ela enxergasse o amor que mora nos detalhes... Mas nada quis mais fortemente, do que que ela se lembrasse dos nossos ensinamentos.

Hoje ela faz dezoito anos. E tudo o que desejo é que ela seja feliz. Porque sei que a felicidade não é um presente de Deus, é uma conquista nossa. Pra Deus faço as orações de quem ama. Pra ela peço apenas que não esqueça que nesses pouco mais de dez anos, se não fomos o que ela queria - o pai dela e eu - fomos o melhor que poderíamos. Que encontre quem na verdade é, e que tenha a verdade como princípio, porque é impossível ser feliz de mentira. Que não se acomode na própria inteligência. Que mais do que saber que pode, faça! Que mais do que sonhar, realize! Que mais do que dizer, demonstre!

Eu fico daqui, esperando – e acreditando – que mais tarde chegará o dia em que poderei dizer que a rechonchuda menina de bochechas rosadas e vestido azul, se transformou numa bem sucedida mulher, conhecedora de seu valor e potencialidades, dessas que de batalha em batalha vão colecionando muito aprendizado, e algumas vitórias.

E tudo o que quero, é que ela não queria pouco, porque sei, que com esforço e dedicação – e nada há de bom na vida que prescinda deles – ela pode muito.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Do que importa

     Fim do ano. Você, assim como eu, já deve ter recebido cartões de natal com votos de paz e prosperidade. Venho então, desejar os meus. E devo ter, no ano passado, desejado estas mesmas coisas. E se o faço agora, certamente, é porque é o que te desejo durante todo o ano.
     Mas hoje venho desejar mais: desejo que mais do que tomado pelo espírito consumista do Natal de Noel, você seja tomado pelo espírito de fé, esperança, caridade e fraternidade do Natal de Cristo. E que mais do que dar presente, você dê afeto, carinho, e atenção. Porque presentes, no próximo ano, não deverão faltar. As novidades tecnológicas, os últimos lançamentos em livros e discos, os brinquedos da hora, e todas as coisas incríveis que nos convencerão de que precisamos ter e dar, estarão por aqui, cada vez mais novas, diferentes e igualmente incríveis. Mas as pessoas... as pessoas podem não estar. Pessoas tomam outros rumos, mudam de colégio, de emprego, de casa, e pior: mudam de plano. E com quem amamos em outro plano, perdemos a oportunidade do afago, do carinho, das demonstrações de amor.
     Então, rogo a Deus que estejamos juntos, e com saúde. Que sejamos capazes de dar ouvidos, olhos e coração. Que em nossa mesa o alimento seja farto e repartido. Que em nossa casa tenha sempre lugar para receber e abrigar um irmão. E que estejamos sempre atentos para os pequenos grandes presentes que recebemos todos os dias. E que partilhemos, hoje e sempre, do amor que une todas as coisas.

                  Grande, afetuoso e aconchegante abraço, [sinta!]

                                                               e meu amor.

                                                                                Samara Eugênia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

a quem interessa possa

De tempos em tempos emudeço. A razão? Também pergunto. Em não achando resposta, continua cá dentro uma vontade incontrolável de dizer-me sem saber como, nem por que. Sobra o sentimento de que não há nada a ser dito, pela simples e tamanha desnecessidade de clarear o que já é lume. Então, se não há nada a contar, por que então não cessa essa ânsia de dizer?
Acabo de encontrar em Caio Fernando de Abreu, estampado num cartão criado pela Sayô [amiga querida], numa simplicidade desconcertante, uma possível razão. “E quem pode comigo quando digo o que sinto?”, li, encontrando a absurda verdade. Não posso. Nem quero. Nem devo dizer tudo o que sinto. Isso me colocaria em um estado de vulnerabilidade para o qual não estou, ainda, preparada.
Fato é que não cabe em mim tudo o que sinto e penso, e por isso acolho o grande vazio das coisas não ditas. É preciso dizê-las. Mas a repercussão disso, o entendimento disso, pode ser tão avesso ao que de fato é, que é preferível calar.
Expor dói. Esconder dói ainda mais. Então, diga caro (a) amigo (a), que faço eu dessas coisas tantas que me atravessam o peito? Seguro o que escapa pela ponta da língua? Ou desentalo o que escorrega goela adentro?
Lembrei-me de uma canção do disco “Peixes, pássaros, pessoas”, da Mariana Aydar: “vi que é melhor calar que falar, mas é cada uma que tenho que escutar...”, e deu vontade de rir. Por quê? É que os versos seguintes me dão uma saída, que se não é a melhor, é a mais bem humorada: “no momento não estou, mas deixe o nome após o sinal, que eu ‘tô’ pras bandas de lá, fui viajar, pra ver o sol morrendo no mar... pras bandas de lá... fui viajar, e desliguei o celular...”.

... e essas são as coisas de quem diz quando nada quer dizer, para quem interessar possa.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Doador de sorrisos

Mamãe sempre diz que nunca viu alguém gostar mais de comemorar seu aniversário do que o Tio Haroldo. Conta que na hora dos parabéns - quando a maioria dos adultos se constrange com o apagar das velhinhas - ele saltita, bate palmas, e ri como criança.
Lembrei-me disso ontem, chegando ao hospital Walter Cantídio, em Fortaleza, para vê-lo. Catorze dias depois da cirurgia que lhe deu um novo fígado, assim que me vê, ele pede, como a mesma alegria de uma criança que exibe seus brinquedos novos, que me mostrem a cicatriz enorme no abdômen, e os pés e mãos desinchados.   Os pontos estão sequinhos, e os pés e as mãos voltaram ao normal.
Ele fala que quer cortar o cabelo, lembra que o filho não quer que fique grisalho, pergunta da minha sogra, diz que já foi camelô, e parece querer descontar os dias em que emudeceu pela encefalopatia, a inflamação que causa alterações cerebrais pela disfunção do fígado.
Também quer fotos com os médicos e as enfermeiras, e com Tia Jesus de um lado e Tia Joana do outro. Quando me afasto, diz: — O sorriso, o sorriso! Fotografa o sorriso! - para que lhe tirem a máscara do rosto.
O tempo parou por horas, naquele segundo. Tive a impressão de não ter feito a foto. Tive a vontade de ficar ali parada. Tive a certeza de que aquele era o “estado de graça” do catecismo da minha infância: o sorriso do tio Haroldo.
Agradeci. Por ele, por tê-lo, por poder continuar a tê-lo. Pedi que bênçãos sejam derramadas na família do doador. Que outras pessoas e famílias sejam inspiradas pelo amor que é partilha e autorizem a doação de órgãos. 
A fotografia? Está aqui embaixo. Está impressa. Vai se multiplicar entre os irmãos, sobrinhos e amigos. Mas o que rogo a Deus que se multiplique seja o sorriso. Que vendo o genuíno sorriso de quem nasceu de novo, sejamos capazes de semear a vida no lugar da dor.  Que seja possível que a dor mais profunda de quem enterra os seus, represente renascimento e alegria para quem padece na imensa fila de transplantes no Brasil.