sábado, 5 de fevereiro de 2011

A menina que senta na frente


A menina que senta na frente prende parte dos cabelos no alto da cabeça e deixa pender os cachos por sobre o ombro. Recende deles um cheiro bom de manhã com café e leite. 

A menina, quando senta na frente, deixa as pernas balançarem sem que os pés toquem o chão, e me carrega por minutos cheios de muitos segundos no vai e vem das pernas dela, enquanto o professor fala de algum assunto alheio ao movimento cadenciado e leve da existência dela.

A menina, finda a aula, presa no meu olhar infinitamente atento, apóia o pé esquerdo no chão, gira o corpo, ergue o quadril, e arruma com as mãos a blusa que mantém sempre dentro da calça. Meu coração, inda quieto de contemplação, principia disparada.

A menina vem morena e graciosa com sorriso de inacessível ‘nota dez’ para o meu saber parco e interesse pouco das coisas que não são dela. Tem um sorriso gigante de uns dentes imperfeita e lindamente colocados. Uns olhos pretos emoldurados por longos cílios. Um rosto comprido e fino, incapaz de abandonar meus pensamentos por um segundo que seja.

Da menina tudo pertenço, e de tudo me apodero: o andar macio com os pés afastados como relógio que marcasse dez pras duas, da testa alta e inteligente, dos óculos sempre levemente borrados, do jeito de cingir as sobrancelhas quando duvida de algo, do cheiro de lavanda, das coisas que dia a dia descubro no meu acanhado e silencioso observar.

Vem a menina que senta na frente e passa pelo invisível. E mora no invisível. E ocupa todas as coisas possíveis do invisível ser que a adora.

imagem, fonte: http://kaliblog.blogspot.com/2004_08_01_kaliblog_archive.html

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

um jeito de ver o Carnaval de Teresina


O assunto da semana em todos os portais e jornal de Teresina foi a recomendação administrativa do Ministério Público, através da Promotora Leida Diniz, de que não houvesse repasse da ajuda de custo do município para as Escolas de Samba. O prefeito resolveu não brigar com o MP, e suspendeu o repasse que viabilizaria o desfile.

As razões da recomendação? Pelo que se pode ler e ver nos meios de comunicação: a promotora acha – e aqui, pra mim, esse “ACHA” grita! – que há coisas mais importantes com o que a prefeitura se preocupar. Nas matérias que li não há menção sobre malversação do dinheiro público por parte das GRES, nem da prefeitura. Em reunião com os representantes das escolas ela disse ter conhecimento de que no carnaval “não se distribui leite”, e sim bebidas alcoólicas, e compara o orçamento público com o doméstico e encerra a reunião dizendo “vocês como donos de casa, pais de família, se estivessem com o orçamento apertado fariam festa ou pintariam a casa?” (não estive lá, não ouvi esta mesma frase, mas do que ouvi do presidente do Sambão, corroborada pelas entrevistas dela que li, ainda que sejam outras as palavras, a ideia continua a mesma). Vi em sua fala desconhecimento, preconceito e parcialidade.

O que a senhora Leida ignora, e não está sozinha, infelizmente, é que uma escola de samba gera renda, direta e indiretamente, para inúmeros e variados profissionais. Para ilustrar: figurinistas, costureiras, sapateiros, ferreiro, carpinteiro, músicos, coreógrafos, dançarinos, etc. Faz circular dinheiro na compra de tecidos, madeira, ferro, adereços, tintas, e etc. Isso sem falar naqueles que no dia do desfile vendem bebidas, comidas, empurram os carros alegóricos e mais etc. e etc.

Muito do que digo agora já foi repetido e argumentado em anos anteriores. Mais do que defender o carnaval de escola de samba, gostaria de levantar alguns questionamentos com base no que li ao longo de toda a semana no twitter.

Carnaval é cultura? Em sendo, é cultura de menor valor? Se considera que não é cultura, por que em Recife e em outros estados ele é considerado Patrimônio Imaterial?

Ah, o carnaval de Pernambuco é lindo? É? E ele estreou no mundo sendo lindo?

Se o carnaval de Teresina não é lindo e lucrativo como em outras partes do Brasil é justo que se coloque a culpa única e exclusivamente nos diretores de escola de samba?

Houve descontinuidade do carnaval de GRES, o que gerou insegurança e descrédito. Todos os anos havia insegurança quanto a realização dos desfiles. Sendo assim, como é possível que a escola de samba se prepare, e siga sozinha, sem saber – e em todos os dez anos que acompanho nosso carnaval foi essa peleja – se haverá desfile ou não? Se o prefeito vai garantir a infra-estrutura e os repasses?   

Muitos são os especialistas, debochados, intelectuais, micareteiros, e “fiscais” de plantão, sendo levianos e desrespeitosos com quem faz com amor e garra o carnaval de Teresina. Mas todos esses, quando o carnaval chegar, vão para os seus sítios, para as praias vizinhas, para os festivais de música na serra...

E de quem então ficavam lotadas as arquibancadas? Que pessoas estavam nas alas organizadas e coreografadas? De onde saíram todos aqueles cadeirantes que emocionaram o público no desfile do Sambão? Que pessoas eram aquelas indo e vindo com suas famílias, lotando as barracas ao longo da Marechal?

São moradores da Matinha, da Vila Betinho, do Poti Velho, do Bumba Meu Boi. São feirantes do mercado. São pessoas simples, de vida simples. São assalariados que só podem ir à praia se pagarem parcelado, uma excursão  de 2 dias. Mas isso também é coisa de pobre, né?

Mas na televisão, em 2009, mostraram a arquibancada descoberta e ela estava vazia. A repórter falava com outro colega no interior do estado e mostrava os blocos de trios elétricos: um mar de gente. E voltava para a arquibancada vazia, ignorando o porquê de ela assim estar: Chuva!

[Qual? Aquela TV que há anos brigava por uma micareta. Que interesse teria, então? Pois é...]

Por fim, se há desconfiança na aplicação do dinheiro por parte das escolas, a promotora deve fazer mais do que recomendar que não seja feito o repasse: denunciar. Quem deve que pague. Afinal de contas, como disse Paulo Andrade em comentário na coluna de Sérgio Fontenelle: não parece inteligente matar o boi para acabar com os carrapatos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

para uma menina

Há pouco mais de dez anos atrás conheci uma rechonchuda menina de bochechas rosadas de vestido de bolinha. E a única coisa que desejei, foi que ela me aceitasse.

Essa menina rosada e sorridente era falante, conversante, matracante. Queria ser passista da Escola de Samba, queria o disco da Kelly Key, queria cantar “Juvenar” do Karnak, queria estar comigo e com o pai aonde quer que a gente fosse. E nessa época, enquanto ela fazia parte da minha vida com uma definitividade perturbadora, eu só quis que ela um dia me entendesse.

Mas o que mais fortemente queria essa menina, uns cinco anos atrás, era crescer. E nessa de muito cedo querer ser dona do próprio nariz, de experimentar a vida na urgência que só os adolescentes têm, foi colecionando atropelos tantos quanto as cores de cabelos e piercing e gostos musicais e amigos virtuais quanto pudesse. Apareceram, então, os primeiros conflitos. Eu queria proteger, educar, fazer da minha asa o lugar mais seguro do mundo. Ela queria enganar o tempo na ilusão de que crescimento é liberdade. E a coisa que mais desejei foi que ela me ouvisse.

Há exatos três anos a menina fez quinze anos com uma bonita festa. E incumbida de dizer algumas palavras, fiz um poema, “que é coisa mais afeita às tuas luas”. E dizia “o amor não é dizido: é demonstrado. E o tanto que te amo, deixo ao teu coração, que sei: é sábio”. E tudo o que quis, com toda a força do meu coração, foi que ela soubesse.

Meses depois puxei a menina pelo braço e tive com ela a conversa mais franca da minha vida. E esperei, com a tranquilidade de quem se desnuda, que ela acreditasse.

Experimentamos então, a menina e eu, nos últimos dois anos, uma época de estranheza. Eu queria ver, no fundo daquela confiança adolescente, o coração da menina de vestido azul. Queria ver na alegria virtual daquela menina, a verdadeira alegria, aquela que não vai boca a fora, mas salta dos olhos, e invade gente a dentro; e não via. Queria ver nela dedicação e empenho com os estudos; o futuro. Queria que ela enxergasse o amor que mora nos detalhes... Mas nada quis mais fortemente, do que que ela se lembrasse dos nossos ensinamentos.

Hoje ela faz dezoito anos. E tudo o que desejo é que ela seja feliz. Porque sei que a felicidade não é um presente de Deus, é uma conquista nossa. Pra Deus faço as orações de quem ama. Pra ela peço apenas que não esqueça que nesses pouco mais de dez anos, se não fomos o que ela queria - o pai dela e eu - fomos o melhor que poderíamos. Que encontre quem na verdade é, e que tenha a verdade como princípio, porque é impossível ser feliz de mentira. Que não se acomode na própria inteligência. Que mais do que saber que pode, faça! Que mais do que sonhar, realize! Que mais do que dizer, demonstre!

Eu fico daqui, esperando – e acreditando – que mais tarde chegará o dia em que poderei dizer que a rechonchuda menina de bochechas rosadas e vestido azul, se transformou numa bem sucedida mulher, conhecedora de seu valor e potencialidades, dessas que de batalha em batalha vão colecionando muito aprendizado, e algumas vitórias.

E tudo o que quero, é que ela não queria pouco, porque sei, que com esforço e dedicação – e nada há de bom na vida que prescinda deles – ela pode muito.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Do que importa

     Fim do ano. Você, assim como eu, já deve ter recebido cartões de natal com votos de paz e prosperidade. Venho então, desejar os meus. E devo ter, no ano passado, desejado estas mesmas coisas. E se o faço agora, certamente, é porque é o que te desejo durante todo o ano.
     Mas hoje venho desejar mais: desejo que mais do que tomado pelo espírito consumista do Natal de Noel, você seja tomado pelo espírito de fé, esperança, caridade e fraternidade do Natal de Cristo. E que mais do que dar presente, você dê afeto, carinho, e atenção. Porque presentes, no próximo ano, não deverão faltar. As novidades tecnológicas, os últimos lançamentos em livros e discos, os brinquedos da hora, e todas as coisas incríveis que nos convencerão de que precisamos ter e dar, estarão por aqui, cada vez mais novas, diferentes e igualmente incríveis. Mas as pessoas... as pessoas podem não estar. Pessoas tomam outros rumos, mudam de colégio, de emprego, de casa, e pior: mudam de plano. E com quem amamos em outro plano, perdemos a oportunidade do afago, do carinho, das demonstrações de amor.
     Então, rogo a Deus que estejamos juntos, e com saúde. Que sejamos capazes de dar ouvidos, olhos e coração. Que em nossa mesa o alimento seja farto e repartido. Que em nossa casa tenha sempre lugar para receber e abrigar um irmão. E que estejamos sempre atentos para os pequenos grandes presentes que recebemos todos os dias. E que partilhemos, hoje e sempre, do amor que une todas as coisas.

                  Grande, afetuoso e aconchegante abraço, [sinta!]

                                                               e meu amor.

                                                                                Samara Eugênia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

a quem interessa possa

De tempos em tempos emudeço. A razão? Também pergunto. Em não achando resposta, continua cá dentro uma vontade incontrolável de dizer-me sem saber como, nem por que. Sobra o sentimento de que não há nada a ser dito, pela simples e tamanha desnecessidade de clarear o que já é lume. Então, se não há nada a contar, por que então não cessa essa ânsia de dizer?
Acabo de encontrar em Caio Fernando de Abreu, estampado num cartão criado pela Sayô [amiga querida], numa simplicidade desconcertante, uma possível razão. “E quem pode comigo quando digo o que sinto?”, li, encontrando a absurda verdade. Não posso. Nem quero. Nem devo dizer tudo o que sinto. Isso me colocaria em um estado de vulnerabilidade para o qual não estou, ainda, preparada.
Fato é que não cabe em mim tudo o que sinto e penso, e por isso acolho o grande vazio das coisas não ditas. É preciso dizê-las. Mas a repercussão disso, o entendimento disso, pode ser tão avesso ao que de fato é, que é preferível calar.
Expor dói. Esconder dói ainda mais. Então, diga caro (a) amigo (a), que faço eu dessas coisas tantas que me atravessam o peito? Seguro o que escapa pela ponta da língua? Ou desentalo o que escorrega goela adentro?
Lembrei-me de uma canção do disco “Peixes, pássaros, pessoas”, da Mariana Aydar: “vi que é melhor calar que falar, mas é cada uma que tenho que escutar...”, e deu vontade de rir. Por quê? É que os versos seguintes me dão uma saída, que se não é a melhor, é a mais bem humorada: “no momento não estou, mas deixe o nome após o sinal, que eu ‘tô’ pras bandas de lá, fui viajar, pra ver o sol morrendo no mar... pras bandas de lá... fui viajar, e desliguei o celular...”.

... e essas são as coisas de quem diz quando nada quer dizer, para quem interessar possa.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Doador de sorrisos

Mamãe sempre diz que nunca viu alguém gostar mais de comemorar seu aniversário do que o Tio Haroldo. Conta que na hora dos parabéns - quando a maioria dos adultos se constrange com o apagar das velhinhas - ele saltita, bate palmas, e ri como criança.
Lembrei-me disso ontem, chegando ao hospital Walter Cantídio, em Fortaleza, para vê-lo. Catorze dias depois da cirurgia que lhe deu um novo fígado, assim que me vê, ele pede, como a mesma alegria de uma criança que exibe seus brinquedos novos, que me mostrem a cicatriz enorme no abdômen, e os pés e mãos desinchados.   Os pontos estão sequinhos, e os pés e as mãos voltaram ao normal.
Ele fala que quer cortar o cabelo, lembra que o filho não quer que fique grisalho, pergunta da minha sogra, diz que já foi camelô, e parece querer descontar os dias em que emudeceu pela encefalopatia, a inflamação que causa alterações cerebrais pela disfunção do fígado.
Também quer fotos com os médicos e as enfermeiras, e com Tia Jesus de um lado e Tia Joana do outro. Quando me afasto, diz: — O sorriso, o sorriso! Fotografa o sorriso! - para que lhe tirem a máscara do rosto.
O tempo parou por horas, naquele segundo. Tive a impressão de não ter feito a foto. Tive a vontade de ficar ali parada. Tive a certeza de que aquele era o “estado de graça” do catecismo da minha infância: o sorriso do tio Haroldo.
Agradeci. Por ele, por tê-lo, por poder continuar a tê-lo. Pedi que bênçãos sejam derramadas na família do doador. Que outras pessoas e famílias sejam inspiradas pelo amor que é partilha e autorizem a doação de órgãos. 
A fotografia? Está aqui embaixo. Está impressa. Vai se multiplicar entre os irmãos, sobrinhos e amigos. Mas o que rogo a Deus que se multiplique seja o sorriso. Que vendo o genuíno sorriso de quem nasceu de novo, sejamos capazes de semear a vida no lugar da dor.  Que seja possível que a dor mais profunda de quem enterra os seus, represente renascimento e alegria para quem padece na imensa fila de transplantes no Brasil.


sábado, 3 de julho de 2010

Civilidade

     Duas apreensivas senhoras aguardam, no canteiro central de uma grande avenida de Teresina, um momento para atravessar pela faixa de pedestre. Paro. Enquanto passam, com certa dificuldade, uma amparando a outra, olham para mim e acenam com gratidão. Certamente elas sabem que não fiz favor algum, apenas cumpri com o meu dever, mas elas agradeceram.
     Que favor, gentileza e educação tem sido cada dia mais difíceis de se ver, ninguém duvida; mas que o cumprimento de um dever, de tão raro que é, mereça ser agradecido, já é demais.
     A faixa de segurança é sinalização horizontal transversalmente pintada no pavimento da via em cor branca, e dá ao pedestre preferência absoluta de passagem. Cabe ao condutor, diante desse tipo de sinalização, parar e aguardar a travessia do pedestre. Não é necessário que existam placas verticais, ou sinal sonoro. Não é necessário que o pedestre acene, ou que implore. Não é necessário a utilização de dispositivos auxiliares, ou que se coloquem setas luminosas com luz intermitente apontando para o lugar onde o condutor deve parar. Tampouco deveria ser necessário que se fizesse uma campanha de conscientização dos condutores a esse respeito.
     Para o exercício do direito de dirigir é necessário passar pelo processo de habilitação, e o conhecimento da faixa de pedestre, e da obrigatoriedade de parada, é básico. Mesmo quem obteve a habilitação há muitos anos deveria saber – e sabe! – disso.
     O que tem faltado, na verdade, não é conhecimento, é respeito. Respeito ao direito do outro de fazer a travessia em segurança; respeito à coletividade; respeito às leis e normas que regulamentam o espaço público; respeito a princípios básicos de convivência e humanidade.
     De todas as normas de circulação e conduta, a que mais gosto, sem dúvida, é a obrigatoriedade que tenho, enquanto condutora, de parar para a passagem do pedestre. Para mim isso é mais que o cumprimento de um dever, é símbolo de respeito ao direito do outro. O ato de parar para que o outro passe me lembra que meu direito termina quando começa o direito do outro, e que saber fazer essa diferença é que é civilidade.